segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Crise de identidade

Não me sentia mais parte daquilo. Já não ia aos ensaios, os compromissos fora do grupo se multiplicavam e ele ia ficando cada vez mais em segundo (ou terceiro) plano. Foram 17 anos de indiadas, apresentações bombásticas, uma invernada mirim implacável, uma faixa de 1ª Prenda Juvenil, uma faixa de Mais Prendada Prenda do rodeio de São Chico (num concurso onde eu acreditava que já tinha vencedora e que nem estava lá na hora que anunciaram meu nome), mais indiadas, viagens legais, viagens nem tão legais, amigos pro resto da vida, três incursões pela Europa, uma (ou duas?) pro Uruguai, uma lá onde Judas perdeu as botas na Argentina, uma torcicolo que me tirou de uma Tirana do Lenço em Portugal, muitos alojamentos, banheiros imundos, banhos de água gelada (de doer o corpo!), amigos de outros países, nenhum pingo de lágrima derramado, uma apresentação com o tornozelo enfaixado e recomendações médicas para não dançar, os dois joelhos podres, acampamentos improvisados... Foram oportunidades únicas de conhecer mais sobre outras culturas e valorizar a nossa.

Comecei com os ensaios na casa da tia Carmen e do tio Maruí, fui a segunda na fila da mirim por muito tempo, dancei com o Filipe e com o Bodão, até deixarem só eu e o Wander (os mais altos e mangolões) por lá. Assumi o posto de primeira na juvenil por toda minha trajetória (a não ser nos ensaios em que eu e, de novo, o Wander, éramos separados em função das brincadeiras). Passei pra adulta depois dos meus 15 anos, quando todos meus amigos já tinham passado, eu e, de novo, o Wander, fomos os últimos a sair da juvenil. Entrei de terceira, dancei com o Morangão e com o Binho, até ser par do Régis, o coordenador do grupo. Aquele mesmo que metia o terror quando tava na mirim, o mesmo que me castigava, junto com o Sapão, na juvenil, era agora meu par. Nem sei quanto tempo dançamos juntos, sei que nos entendíamos só com um olhar, ou de repente um aperto de mão mais forte. A responsabilidade aumentava à medida que minhas idas ao ensaio ficavam cada vez mais escassas. Me afastei.

Na noite em que buscaram minhas pilchas senti que um ciclo tinha se fechado. Mas a dor por entregar meus vestidos me deixava na dúvida. Deveria sentir tanto algo que já considerava passado?

Nunca tinha ficado de fora de um Festival. Só em 2004, por castigo pelas faltas, eu e, de novo, o Wander, não apresentamos. Mas dessa vez era diferente. Não tinha meu crachá. Não tinha ajudado a planejar. Não tinha reclamado de ter que arrumar o cabelo cedo. Não tinha me pilchado pra missa. Não conhecia o pessoal dos grupos. Nada. Sentei na platéia ao lado da Lissetty, uma amiga peruana que fiz num festival na Espanha em 2002. Ela veio com os pais assistir nosso Festival e ficou bem triste por não ver o pessoal que conheceu na época se apresentar. Já tinha conversado com alguns integrantes e cogitado a possibilidade de me lavar chorando durante a apresentação do meu grupo. Mas chorar? Logo agora que não fazia mais parte de nada disso? Cheguei atrasada na noite de encerramento, pra variar, mas ainda não tinham começado. Quando a Carla e o Mozart (adorei os apresentadores!) anunciaram o desfile e o pessoal entrou, deu aquele nó na garganta. Queria entrar na fila e subir junto no palco! Mas me coloquei no meu lugar de mera espectadora e fiquei aguardando. As cortinas fechadas, o cerimonial sendo feito, mas aquele “Província! Província! Província” cheio de garra escapou aos meus ouvidos. Atrás das cortinas imaginei as mãos juntas, o nervosismo, os beijos e abraços de boa sorte. As lágrimas escaparam antes mesmo de começar a apresentação. Mas me contive. Tentei olhar com olhos críticos, de quem ficava de fora nos ensaios pra ver a harmonia das prendas. Mas fui vencida pela interpretação da primeira música, Galpão Açoriano, coreografia nova feita especialmente para a ocasião. Agüentei até o fim sem derramar mais lágrimas. Mas quando eles voltaram cantando “Eu sou do Sul” e vi a Tati, agora ela dançando com o Régis, segurando o choro, não resisti. Saí discretamente do teatro e “burlei” as regras. Não fui mais mera espectadora ali. Subi ao andar em que os grupos faziam de camarim e fui parabenizar, e xingar, meus amigos. Que me fizeram chorar. As primeiras lágrimas depois de anos (o Wander vai achar isso ridículo!).

Ouvi protestos de que minhas férias acabaram, que eu e o Régis passávamos segurança ao resto do grupo, que eu tinha que voltar. E balancei. Tô balançando ainda...

Impossível não se sentir parte de algo que permeou tua vida por 17 anos. Sem contar que continuo chamando o Festival Internacional de Folclore de Gravataí de “nosso” e o DCG Província do Quero-Quero de “meu grupo”.

4 comentários:

Rafael disse...

te entendo. aquilo ali, querendo ou não, é algo tão forte, que mesmo a quem ano e meio, ou dois participando, traz uma falta e um sentimento de fraqueza. ali tu se sente forte.

mas quem sabe essas balançadas não envolvam mais pessoas do que apenas tu, dona Ci?

tudo muda o tempo todo no mundo...

Fala garoto, fala garota. disse...

Chorei, só de ler... e se a saudade bater, volta volta volta. Não é vergonha. E nada é definitivo nessa vida...

nini disse...

...sei bem como é isso!
te confesso q derramei algumas lágrimas lembrando do q eu passei!

desde a mesma época... vivendo praticamente as mesmas coisas q vc escreveu... porém meu fim foi muito diferente!

lembranças boas ficaram sim! saudade... talvez de algumas coisas!

pena que para mim hoje a mágua e a tristeza prevalecem sobre tudo!

aproveita Ci... volta! (nem eu acredito q estou te dizendo isso rsrs)

beijo grande da também ex 1ª Prenda Juvenil da Estância Província de São Pedro!!!

Alice disse...

A Ci tb chora!!! E eu nem acredito que vi!
Pelo menos tu assistiu né?! (eu ainda não)